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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Grande entrevista ao ex goleador do Águias de Camarate Rui Pedro

Hoje trazemos até vós uma grande entrevista, com um dos muitos bons jogadores que passaram pelo Águias de Camarate. 
Foi com o ex-avançado Rui Pedro, o artista dos golos, com quem estivemos à conversa recordando memórias e revivendo o Águias de Camarate.

JORNAL DE CAMARATE: Olá Rui desde já muito obrigado pela tua disponibilidade. Começaste e acabaste a tua carreira desportiva no Águias de Camarate. Quais são as tuas primeiras recordações dos primeiros treinos no clube, ainda como infantil? Como aconteceu a tua iniciação ao futebol, porquê no Águias de Camarate e que recordação, ou recordações, ainda hoje trazes contigo desse primeiro ano de futebol a representar um clube?


RUI PEDRO: A minha primeira recordação e a que permanece mais viva é precisamente do meuprimeiro treino no Águias de Camarate. Vivi toda a minha infância em Camarate. A minha mãe e toda a minha família materna são de Camarate. O João Morais (por todos em Camarate conhecido por “Ginja”), meu primo é um dos fundadores do Águias, tinha eu 10 anos, levou-me a um treino de iniciados. Fiz 3 ou 4 golos sendo que, recordo-me, os meus colegas, que eram mais velhos, alertavam-me constantemente que estava em fora-de- jogo. Ainda não sabia o que era um fora-de- jogo. Nas ruas do Paraíso (Quinta do Paraíso) não haviam foras-de- jogo (risos). O treinador dos infantis que estava a assistir ao treino gostou de mim. E assim iniciei o percurso como federado no Águias na época 1988-89. Recordo-me também que perdíamos todos os jogos. Certo jogo o meu pai decidiu atribuir 100 escudos a quem marcasse um golo. Ganhámos por 12 e ficou-lhe cara a brincadeira (Risos).
JC: Passado um ano saíste para o Olivais e Moscavide, no qual jogaste três anos, até dares o salto para o Sporting CP onde fizeste duas temporadas nos juvenis do “teu clube”. Como foi para ti, ainda tão novo, mudares do Ol. Moscavide para o Sporting? Porque, passar num clube como o Sporting CP, é sempre um marco importante para todo o praticante de qualquer modalidade desportiva, quais foram os altos e baixos que destacas nessa tua passagem por um “grande” do futebol português?

RUI PEDRO:  Sim. É sem dúvida um marco importante e são recordações ímpares que guardo na memória. Uma curiosidade foi o facto de ter sido observado por um olheiro do Sporting num jogo entre o Camarate e o Olivais e Moscavide no campo do Águias. No Sporting, as condições, os equipamentos (na altura de marca Umbro), as chuteiras (Adidas Copa Mundial), as bolas, os métodos de treino, a estrutura com vários treinadores por escalão...tudo isto era incomparável com as realidades que conhecia. Foi uma experiência inesquecível e facilitada pois a mudança para o Sporting não obrigou a uma mudança de cidade ou afastamento dos meus pais, ao contrário de muitos outros colegas que residiam no centro de estágio do antigo Estádio de Alvalade, afastados das suas famílias. Tinha 15 anos e o apoio e presença constante e diária da minha família, ao contrário de muitos colegas que sofriam com o distanciamento numa idade crucial da sua educação e crescimento. Por outro lado, passei do jogador que mais se destacava no Olivais e Moscavide para uma equipa em que todos eram bons. E isso pode ser difícil de gerir para qualquer miúdo. Olhando para trás, julgo que geri bem, muito embora em determinados momentos tenha tido alguma falta de confiança que me inibiu, situação essa natural quando ainda estás em fase de evolução, maturidade e de crescimento desportivo. Pontos altos destaco, por exemplo, ter sido campeão nacional em 1993/94, o melhor marcador de Juvenis B na época 92/93 com 38 golos marcados e o melhor jogador do Torneio de Juvenis do Clube Vitória de Lisboa. Ainda guardo orgulhosamente os recortes do Jornal do Sporting da época. Lembro-me como se fosse hoje. Choveu torrencialmente na final do Torneio, o que me agradava. Vencemos o Torneio e fiz duas excelentes exibições com golos muito bonitos. Na entrega de prémios estava distraído e não ouvi o meu nome. Tiveram que ser os meus colegas a chamarem-me à atenção.

Já antes, o falecido Zé Manuel Soeiro, outro grande Camaratense e um dos meus melhores amigos (acompanhava-me para todo o lado com a família), tinha ouvido pelos “juízes” que o prémio de Melhor Jogador seria entregue ao n.º 9 do Sporting Clube de Portugal. Recebi um troféu e fui muito acarinhado por várias figuras do futebol do Sporting, entre as quais Vitorino Bastos (Técnico escalado para esse torneio e ex- futebolista sénior do SCP) e o Sr. Manuel Ferrão, Director do Departamento de Futebol Juvenil do Sporting. Com 15 anos estas coisas não se esquecem (risos).

Destaco também um outro jogo gravado na minha memória contra o nosso Águias (são recorrentes as ligações aos Águias) no campo pelado do antigo estádio de Alvalade. Vencemos por 5-1 e marquei 3 golos de bandeira que motivou felicitações por parte de alguns elementos da estrutura do Sporting. Lembro-me do Patacas dizer que estavam olheiros da seleção a ver o jogo. Judiava comigo (risos). Pontos baixos são felizmente poucos. Mas o afastamento de um clube como o Sporting, naquelas idades, é doloroso. Esse dia não se esquece facilmente. Um ano depois, antes da última época como júnior começar, ao destacar-me em treinos com os séniores do FC Alverca, na altura treinados pelo Vitorino Bastos, treinador que tinha feito parte da estrutura de técnicos do Sporting, voltei a ser chamado a Alvalade mas voltei a não conseguir convencer Fernando Mendes, o técnico que me havia dispensado.


JC: Partilhaste balneário, nessa altura, com alguns nomes que tiveram algum sucesso no futebol português, o Nuno Santos, o Vargas, Patacas e principalmente o Caneira. Como era o ambiente de balneário? Quem era o “craque”!?

 RUI PEDRO: Nuno Santos, Vargas, Patacas, Marco Almeida, Varão, Carlos Fernandes eram craques e excelentes colegas mas havia o verdadeiro “craque” e vedeta da equipa. Dani. Hoje comentador de Futebol da TVI. Era o miúdo giro e a coqueluche da equipa. Quanto ao ambiente no balneário, com 35 atletas no mesmo escalão, todos adolescentes e com diferenças de 1 ano de idade, haviam naturalmente “grupos” e colegas com os quais se criava mais empatia. Salvo raras exceções, o ambiente era excelente e recordo esses 2 anos com muita alegria e saudade. Ainda recentemente o Rui Sabugo organizou almoço para reviver essas épocas. Infelizmente não pude comparecer, mas no próximo ano lá estarei para reviver esses momentos.

JC: Voltas ao Moscavide, onde fazes o teu primeiro ano de júnior, segues para o Alverca onde fizeste o teu último ano de júnior. No ano seguinte voltaste a Camarate, mas antes de falarmos desse regresso, o que correu mal - ou menos bem - para não teres ficado nos séniores do Alverca? Nesse ano disputava o campeonato da 2ª Divisão Nacional, tinhas a concorrência, entre outros, dos recém-chegados Ramires e Edgar, do Akwá que já lá estava... Era uma concorrência forte para a tua posição ou já sabias, antes de chegarem os reforços, que terias de procurar clube?

RUI PEDRO: Quando estava no Alverca nunca julguei ter oportunidade de seguir para sénior. Na altura, ao contrário de agora, não existia uma preocupação com a formação e nunca senti qualquer ligação ao futebol profissional do Alverca. Era outro campeonato e a aposta era feita em jogadores com experiência ou maior maturidade desportiva. Não me recordo de nenhum colega dos juniores que tivesse subido a sénior nesse ano. É certo também que não me destaquei o suficiente para merecer qualquer atenção. Estava desiludido com o futebol e desmotivado. Já pensava mais nos estudos, que nunca descurei, do que no futebol.

JC: Primeiro ano de sénior no primeiro clube que representaste no futebol. Regressaste ao Águias de Camarate. Mais uma vez, e até porque nesta altura já começavas a ter um curriculum preenchido por passagens em clube renomeados de Lisboa, porquê novamente o Camarate? Como aconteceu?

RUI PEDRO: Tinha curriculum de formação mas não tinha experiência alguma em futebol sénior. Era um miúdo ainda sem maturidade futebolística. Tinha 18 anos. Foi engraçada a forma como tudo aconteceu. Nessa altura comecei a trabalhar como estafeta na Pizza Hut para ganhar uns trocos mas ao fim de poucos dias despedi-me. O Rochinha e o José Manuel Soeiro foram a minha casa para me convencerem a ir jogar para o Águias. Ganhava 20 contos, dava para as despesas, para sair com a namorada (minha atual mulher) e fazia uma coisa que me dava prazer muito embora em divisões secundárias. Voltei a sentir motivação e prazer em jogar futebol.

JC: Chegas ao mesmo tempo que o Zélito (Lito), aquele outro craque, que os “Camaratenses” se lembram perfeitamente quase todos os dias. Foi aquele que nós vimos na televisão jogar na primeira divisão no Moreirense, Naval, Académica, Portimonense e também pela Seleção de Cabo Verde e podíamos dizer “eh pá este gajo jogou no Camarate!!”. Era fácil jogar com ele?

RUI PEDRO: O Zélito era um craque e uma pessoa fantástica. Era facílimo jogar com ele. Aprendi muito com ele. O seu percurso e a sua carreira demonstram a sua enorme qualidade. Não é difícil chegar ao topo. Por vezes, com sorte, chega-se lá. Difícil é mantermo-nos no topo. O Zélito teve uma carreira fantástica e só com enorme esforço e profissionalismo se consegue o que ele conseguiu. Não só conseguiu chegar à 1.ª Divisão – sem sorte e com muito trabalho, através de clubes como Fafe, Espinho, Imortal... como se manteve em equipas históricas do principal escalão onde foi sempre considerado como uma das principais figuras. Não teve padrinhos nem Super Agentes. Percorreu o país à procura do seu sonho e conseguiu concretizá-lo. Foi o jogador formado no Águias que mais longe chegou a nível profissional, chegou a internacional do seu país e é um exemplo para os mais novos. A mensagem que fica do exemplo do Zélito é que com qualidade mas com esforço, empenho e disciplina os mais jovens conseguirão concretizar o sonho de jogar no primeiro escalão do futebol português. Foi um orgulho jogar com ele e é um prazer tê-lo como amigo.

JC: Nesse ano conseguiram formar ali um grupo forte, coeso, subiram historicamente o Águias de Camarate à 3ª Divisão Nacional!! Conta-nos um pouco do que se passou esse ano.


RUI PEDRO: Sinto um orgulho enorme por ter feito parte deste grupo, desta família e de ter contribuído para o regresso do Águias à 3.ª Divisão passados 16 anos da única experiência do Águias neste campeonato. Há um denominador comum a toda a escalada do Águias de Camarate dos distritais à 3.ª Divisão e posteriormente à 2.ª Divisão B Nacional. O Mister José Maria. Foi sem dúvida o grande obreiro e o maior mérito deve ser-lhe atribuído. Devolveu o orgulho, a auto-estima e confiança necessária ao crescimento dos jogadores e consequentemente ao clube. Teve o mérito de manter a mesma “espinha dorsal” e ano após ano acrescentar ao plantel elementos que acrescentaram ainda mais valor à equipa. Conciliámos nesse ano jogadores da terra (Nuno Carvalho, Sérginho, Nuno Ferreira, eu próprio) com jogadores que já sentiam a mística e o clube como seu (Pedro Abranja, Rui Gualdino, Adriano, Pedro Gomes, Zélito, Zé Manuel, João Queirós (capitão), Paulo Alexandre, Félix, Marcelo). Ter-me-ei esquecido de alguns mas foi um grupo fantástico. Foi o meu primeiro ano de sénior e cresci muito nesse ano com o Mister José Maria. Foi quem mais acreditou em mim e o treinador que mais me marcou. Tinha o dom de formar grupos fantásticos e tão depressa espicaçava um jogador para o arreliar e desafiar a ir mais além, como lhe dava moral extra quando o jogador cumpria com o que pretendia. Tenho excelentes recordações desse ano.

JC: 97/98 foi o ano de ambientação à 3ª, terminaram a meio da tabela, o Zé Lito sai para o Fafe, teoricamente ia ser mais difícil para o Camarate mas chega o Chalana, o Didi, o Meca, o Flávio, Moreira, Nelo, entre outros não menos importantes e… O Águias de Camarate sobe à Segunda B pela primeira, e única, vez na sua história! Como é que aconteceu? O que se passou? O que destacas desta época surpreendente?


RUI PEDRO: Mais uma vez mantivemos a espinha dorsal da equipa e com o crescimento e maior maturidade de cada um, vieram outros que acrescentaram valor à equipa. O Chalana vinha do Machico e voltou a casa. É da terra e também iniciou o seu percurso no Águias. Conhecia a mística do clube e tinha uma empatia enorme com as nossas gentes. Estava ainda no auge das suas capacidades e foi crucial. As suas bolas teleguiadas eram meio golo. Tínhamos também o Mané, jogador da terra, com escola, passou também pelo Sporting nas camadas jovens. Jogador elegante, era o nosso capitão e vestia a raça e mística do clube. Didi era um poço de força e um jogador extraordinário. O Vasco, um central fabuloso. Jogo de cabeça ímpar. Porque seria? Era conhecido pelo “Cabeçudo”. (Risos) Moreira, Nelo, Malagueta vieram contribuir ainda com mais experiência e qualidade a uma equipa jovem. Eu era o mais novo com 21 anos. O Sr. Manuel, uma outra figura muito castiça e querida de todos, que geria o Café do Campo, chamava-me “o Bébé” (Risos). O que se passou foi que fomos acreditando em nós. Jogo após jogo fomos chegando à conclusão que as outras equipas não eram melhor que nós. Bem pelo contrário. Fomo-nos destacando e merecendo o respeito das outras equipas. Embora com outros orçamentos, no campo são 11 contra 11. E na Quinta dos Barros, com as nossas gentes, era difícil alguém vencer-nos. O Mister José Maria incutia em nós a confiança e o orgulho em vencer qualquer adversário, fosse ele qual fosse. Que o dinheiro ou os orçamentos não jogavam e que no final quem tivesse mais querer seria o vencedor. Tínhamos uma excelente equipa, um grupo e balneário fantástico, uma verdadeira família que se estendia à direção: José Rocha (Rochinha), o Luis Caldas (Chefe de Departamento de Futebol) e o Presidente Manuel Pereira. Apenas perdemos 4 pontos em casa (1 derrota e 1 empate). Mesmo em jogos fora era impressionante. Em muitos campos adversários, em Odivelas, Moscavide, Sacavém, Loures, eram mais os nossos adeptos do que os do clube da casa. Só na Ilha da Madeira não tínhamos mais adeptos. Era arrepiante sentir esse apoio. O Jornal de Camarate faz uma referência numa crónica recente muito curiosa, referência que revejo como a mística do Águias: “os jogadores quando entravam em campo parecia que entravam numa arena”. A mística do Águias e das suas gentes são precisamente os valores de raça, de luta, de esforço, empenho e de glória. O clube e as gentes de Camarate merecem sentir novamente estes valores.

JC: Foste líder da tabela dos melhores marcadores e acabas por sair para o Estoril-Praia na época seguinte, que estava também na 2ª B, o que te levou a ir para o Estoril? Que até estava nessa altura na mesma divisão que o Águias, não houve também uma sondagem do Belenenses?

RUI PEDRO: Sim. Marquei 21 golos, fui o melhor marcador da Série E e o 4.º melhor de todas as séries da 3.ª divisão nacional. E tinha apenas 21 anos. Prestei provas no Estrela de Amadora (era Jorge Jesus o treinador) e no Belenenses, era o treinador o Vitor Oliveira. Fui selecionado para representar o Belenenses num torneio mas não pude marcar presença pois ainda tínhamos o último jogo do campeonato em Vila Viçosa onde decidimos a subida à II Divisão B. Quando fui transmitir ao Vitor Oliveira, este reunia com o Rui Águas, que seria o futuro treinador do Estoril e que já me tinha referenciado. O Estoril tinha descido de divisão nesse ano e aspirava regressar à II Liga. Era um clube histórico, com condições diferentes, futebol profissional e com orçamento muito superior ao do Águias. Era uma oportunidade e desafio que não poderia recusar. Recordo que o Águias ainda tinha campo pelado naquela altura. Tive também proposta do União de Leiria. Cheguei a reunir-me em Leiria com o meu pai e com João Bartolomeu, Presidente na altura, mas estava longe de casa, previ empréstimos a outros clubes e decidi não aceitar.

JC: Jogaste com um grande Pacheco, talvez o “cabeça de cartaz” daquela equipa do Estoril, ainda fizeste cerca de 30 jogos, metade a titular, marcaste 4 golos para o campeonato e 2 para a taça de Portugal (poucos para o pé quente de Camarate) foi esta escassez de golos que te levou a deixar os canarinhos em 2000 e a ires para o Oriental?

RUI PEDRO: Sim. O Pacheco era claramente o “cabeça de cartaz”. Foi a sua última época de uma carreira ao mais alto nível no Benfica, Sporting entre outros. Encontrei também o Paulo Sérgio (que treinou o Sporting recentemente). Era ponta-de- lança, com jogo de cabeça incrível e naquela altura já era um jogador com muita experiência. Fui seu suplente e aprendi muito com ele. Paulo Ferreira (Ex-jogador do FC Porto e Chelsea) iniciava a sua magnifica carreira para além de outros jogadores que chegaram à 1.ª Divisão: Martins, Tiago Lemos, Nelson Veiga, Jorge Vidigal, Nuno Ferreira, Freddy. Tínhamos uma equipa fantástica, que conjugava experiência com juventude. Apesar de mudanças de treinador, conseguimos um digno 4.º Lugar. O Nacional da Madeira ganhou o grupo e subiu de divisão à II Divisão Nacional. Um conjunto de fatores ditou a minha saída do Estoril: a saída do Rui Águas a meio da época para o Vitória de Setúbal, treinador que me conhecia bem e que apostava em mim, a lesão no menisco em jogo da Taça de Portugal que me limitou a 2.ª metade da época. Fui operado já no Oriental. Tinha o menisco desfeito. E o facto de ter apenas 1 ano de contrato. O Estoril propôs- me inicialmente 2 anos de contrato profissional mas o meu empresário (se arrependimento matasse) nunca chegou a tratar pois estava mais preocupado em receber comissão futura do que em garantir a minha estabilidade e segurança num clube. Com a saída do Rui Águas, nunca mais voltei a ser aposta do treinador que o substituiu. Lesionado e sem contrato para o ano seguinte, o treinador não mostrou interesse em que continuasse.


JC: Pouco tempo estiveste em Marvila, voltaste a Camarate, Vialonga e novamente Camarate… Nesta fase já apanhas um Águias de Camarate meio moribundo, começaram os problemas, talvez tenha sido umas das piores fases do clube, de sempre, queres falar sobre o que se passava? E sobre o que se passou contigo?

RUI PEDRO: Estive em Marvila meia época. O clube estava nos últimos lugares da tabela e começou a dispensar jogadores. Tinha um dos vencimentos mais elevados e fui dispensado. O regresso ao Águias fazia-me cada vez mais sentido. Tinha 24 anos, não queria ir para fora de Lisboa, já não previa nova oportunidade num clube de maior dimensão e o Luis Caldas e o José Maria convenceram-me com facilidade a regressar. Foi um regresso a casa e a uma equipa que continuava com uma grande qualidade. Mais uma vez mérito da direção e do José Maria em construir e gerir plantéis, equipas e balneários. Terão sido os melhores plantéis do Águias e consolidámos a presença na III Divisão em 2000-2001 e 2001-2002. No final da época de 2002 começaram os problemas financeiros. O clube ficou em incumprimento em 2 meses de subsídios mais prémios de jogo. E nós vencíamos muitas vezes. Tivemos várias reuniões com a direção e o Presidente Rui Morais, sendo que acreditámos no compromisso da regularização dos subsídios aos atletas aquando do recebimento de verbas da Câmara Municipal. Acontece que o Luis Caldas, um grande suporte e a pessoa por quem os atletas tinham a maior consideração e confiança abandona o clube em rotura com a direção. Nunca imaginei o que se iria passar a seguir. O clube que aprendera a respeitar e que sempre cumpriu com os atletas, ao contrário do que a direção encabeçada pelo Presidente Rui Morais nos tinha garantido em várias reuniões, decidira não assumir a totalidade das verbas em divida aos atletas. Alguns atletas iriam receber um ¼ do valor, outros nada. Ainda hoje não sei qual o critério estabelecido para pagar aos atletas. Foi uma decisão trágica de pessoas sem princípios que nada acrescentaram ao clube e que, na ausência de contratos (o que tornava difícil para os atletas fazerem valer os seus direitos) não tiveram em atenção o esforço e dedicação dos mesmos ao clube. Não poderia acreditar que o meu clube tivesse a ter este comportamento e acabei por perder a razão ao ter tentado fazer justiça com as próprias mãos. Saí do clube para o Vialonga mas, 2 anos depois, quando já estava cansado e me preparava para terminar de jogar futebol (a meio da época 2003-04) regressei ao Águias novamente pelas mãos do Mister José Maria para ajudar o clube a manter-se na 3.ª Divisão, o que conseguimos. Recordo-me de um jogo em casa contra o Fanhões, ganhámos 3-0 e marquei os 3 de cabeça. O defesa-central do Fanhões era o Vasco (Cabeças), um dos melhores defesas-centrais que haviam jogado no Águias e com quem partilhei balneário vários anos. Um amigo. Nesse jogo levei a melhor.

JC: Nesta última fase, se é que se pode dizer assim, tinhas a fama - e verdade seja dita - e o proveito, de seres algo agressivo/duro em campo, e em jeito de brincadeira te digo que, nesta fase final da tua carreira, já quase que vias mais vermelhos do que metias a bola na baliza!! O que se passava contigo? Eram todos estes problemas que existiam, um acumular de stress e situações menos felizes que, de certa forma, fizeram com que perdesses aquela paixão por jogar à bola e o futebol começou a deixar de fazer sentido?

RUI PEDRO: Não me recordo de levar nenhum vermelho (Risos). Nem sei de terei levado algum alguma vez. Estou em crer que não. Mas sim, talvez fosse um pouco mais duro e irreverente em campo, sendo que considero que a irreverência não é necessariamente má. Já não tinha nada a perder embora quisesse ajudar o Camarate a manter-se na 3.ª Divisão. Tinha 26 anos mas já estava cansado de tantos anos dedicado ao futebol, já trabalhava nessa altura e sentia-me frustrado comigo próprio e desiludido por não ter conseguido ir mais além no futebol. A gestão de expectativas é crucial e embora, muito por iniciativa e incentivo dos meus pais, nunca tivesse descurado os estudos, o meu sonho era jogar futebol. Hoje considero que desisti demasiado cedo, não acreditei suficientemente em mim em determinados momentos desse percurso, não arrisquei outras equipas fora de Lisboa o que me obrigaria a sair da minha zona de conforto. A sorte também faz parte mas também dá muito trabalho. Por isso, uma mensagem que posso deixar aos jovens é que não desistem dos seus sonhos. Que procurem a sua sorte. Que lutem pelos seus sonhos. A mesma mensagem digo-a aos meus filhos repetidamente. Podem ser aquilo que quiserem ser na vida. Só depende de uma pessoa: deles próprios. Nem todos conseguimos ser o que queremos na vida, nem todos os jovens vão conseguir ser craques no futebol ou chegar ao topo do futebol nacional ou mundial como Cristiano Ronaldo mas se não lutarmos viveremos toda a vida com o pensamento de que talvez não tenhamos sido tão esforçados e merecedores dos nossos sonhos. E o Ronaldo lutou muito para conseguir o que conseguiu. Não foi só talento. Foi também muita transpiração, esforço e dedicação.

JC: Como viste o fim do futebol sénior do Águias de Camarate?

RUI PEDRO: Foi uma desilusão um clube histórico de Lisboa e do Concelho de Loures como o Águias de Camarate ter estado tantos anos sem futebol sénior e afastado das competições distritais ou nacionais. As nossas gentes merecem e os mais novos precisam de referências e exemplos para também eles próprios aspirarem a outros patamares. Mas por vezes temos de dar um passo atrás para dar 2 à frente.

JC: E, já agora, o que tens a dizer, após estes anos todos, do regresso do Camarate às competições da AFL?

RUI PEDRO: O Águias não terminou. Tem sido importantíssimo para os mais novos com um projeto fantástico como é, por exemplo, o AC FOOT, que promove a prática de desporto pelos mais novos e o seu crescimento físico, desportivo e social. É uma vitória desta direção encabeçada pelo Presidente Frederico. É uma vitória muito dele que tem uma paixão como ninguém pelo Águias de Camarate. É um orgulho tremendo ver o Águias novamente nestas competições e conto ajudar no que estiver ao meu alcance. Devemos apoiar o clube neste desafio e marcar presença no campo. A direção e a própria equipa é jovem e merecem todo o apoio das nossas gentes.

JC: Agora as perguntas cliché! Tendo em conta todos os jogadores e treinadores com quem trabalhaste: Dá-nos o teu 11 de sempre do Camarate e treinador:

RUI PEDRO: Exercício difícil tendo em conta tantos e tão bons jogadores com quem joguei no Águias. Vou arriscar.
Treinador: José Maria
GR: Moreira
Defesas: Meca, Rui Gualdino, Vasco, Venâncio
Médios: Didi, Mané, Pedro Gomes
Avançados: Lito, Rui Pedro, Chalana.

JC: 11 da Carreira e treinador.

RUI PEDRO: Não será muito diferente.
Treinador: José Maria
GR: Nuno Santos (SCP)
Defesas: Patacas (SCP), Martins (Estoril), Vasco (AC), Paulo Ferreira (Estoril).
Médios: Didi (AC), Tiago Lemos (Estoril), Pedro Gomes (ÁC)
Avançados: Chalana (AC), Rui Pedro, Lito (AC).

JC: Alguma curiosidade que queiras contar e que não tenhamos chegado a falar?

RUI PEDRO: Partilho uma curiosidade que me aconteceu no passado fim-de- semana no Torneio de Veteranos da Alta de Lisboa. Apesar de nunca ter jogado pelo Grupo Desportivo de Loures, fui convidado há um par de anos a participar nestes jogos convívio pelo Loures por ex-colegas do Águias de Camarate: Adriano, Nelo, Paulo Cardoso, Nascimento. Mantemos a forma, o convívio através de umas jantaradas e matamos saudades do bichinho do futebol. Estávamos a jogar contra os Veteranos do Frielas e eu marco um golo de cabeça de canto. Um jogador do Frielas vem ao pé de mim e dá-me os parabéns pelo golo. Disse-me que já me tinha visto no Torneio e que, ainda adolescente se recordava de me ver jogar pelo Águias e dos meus golos (o Tiago, hoje com 30 anos. Eu com 38 anos). Curiosamente perdemos 2-1 com os 2 golos do Tiago, 2 golos de bandeira. Um de livre directo ao ângulo e um excelente de cabeça. Foi a minha altura de retribuir as felicitações. Foi há 17 anos atrás e são muitos ainda os que se recordam das equipas do Águias que fizeram história. É motivo de orgulho e um honra ter feito parte desse período da história do Águias. Faço votos para que daqui a uns anos por exemplo os meus filhos tenham referencias também de equipas séniores e de jogadores do Águias. São estas memórias que faz e engrandece a história dos clubes e das suas gentes.

Em nome do Jornal muito obrigado pelo teu tempo, boa disposição, humildade e pela partilha destas histórias magníficas! Fica também um pedido de desculpas à tua esposa pelo tempo que lhe "roubei" mas, pelo Águias de Camarate, tudo se desculpa! Espero! :)

2 comentários:

Rui morais disse...

E uma lastima o que o Sr.Rui Pedro venha dizer de mim ex presidente rui morais que eu sou uma pessoa sem principios , em vez de assumir o seu erro vem lançar lama passado anos em respeito a sua familia o assunto fica por aqui.

Rui Franco disse...

Gosto do "Sr. 😊 Retribuo. "Sr." Rui Morais disse alguma mentira? Podes continuar a discutir o assunto. Não te acanhes. Não fujas como fizeste quando não tiveste coragem de assumir a decisão aos atletas e teve que ser o tesoureiro do clube a dar o corpo às balas porque o Presidente...que é dele?!